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quarta-feira, 12 de junho de 2013

BOOKS FEED YOUR MIND II. Livros e escritores que alimentam a mente - Fernando Pessoa


FERNANDO PESSOA


O livro do desassossego






Fernando Pessoa algures no Chiado.



O trecho que a seguir se transcreve é intrinsecamente pessoano e assombroso na sua aparente simplicidade. Trata-se do encontro imaginário entre Bernardo Soares, heterónimo (ou semi-heterónimo, como o poeta o classificou) autor do "Livro do desassossego" e o próprio Fernando Pessoa.


Mais uma caminhada do poeta na cidade em que nasceu, viveu e morreu.


    "Há em Lisboa um pequeno número de restaurantes ou casas de pasto em que, sobre uma loja com feitio de taberna decente se ergue uma sobreloja com uma feição pesada e caseira de restaurante de vila sem comboios. Nessas sobrelojas, salvo ao domingo pouco frequentadas, é frequente encontrarem-se tipos curiosos, caras sem interesse, uma série de apartes na vida.

    O desejo de sossego e a conveniência de preços levaram-me, em um período da minha vida, a ser frequente em uma sobreloja dessas. Sucedia que quando calhava jantar pelas sete horas quase sempre encontrava um indivíduo cujo aspecto, não me interessando a princípio, pouco a pouco passou a interessar-me.

    Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando sentado, mas menos quando de pé, vestido com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida e sem interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e era difícil definir que espécie de sofrimento esse ar indicava – parecia indicar vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que nasce da indiferença que provém de ter sofrido muito.

    Jantava sempre pouco, e acabava fumando tabaco de onça. Reparava extraordinariamente para as pessoas que estavam, não suspeitosamente, mas com um interesse especial; mas não as observava como que prescrutando-as, mas como que interessando-se por elas sem querer fixar-lhes as feições ou detalhar-lhes as manifestações de feitio. Foi esse traço curioso que primeiro me deu interesse por ele.

    Passei a vê-lo melhor. Verifiquei que um certo ar de inteligência animava de certo modo incerto as suas feições. Mas o abatimento, a estagnação da angústia fria, cobria tão regularmente o seu aspecto que era difícil descortinar outro traço além desse.
    Soube incidentalmente, por um criado do restaurante, que era empregado de comércio, numa casa ali perto.

    Um dia houve um acontecimento na rua, por baixo das janelas – uma cena de pugilato entre dois indivíduos. Os que estavam na sobreloja correram às janelas, e eu também, e também o indivíduo de quem falo. Troquei com ele uma frase casual, e ele respondeu no mesmo tom. A sua voz era baça e trémula, como a das criaturas que não esperam nada, porque é perfeitamente inútil esperar. Mas era porventura absurdo dar esse relevo ao meu colega vespertino de restaurante.

    Não sei porquê, passámos a cumprimentarmo-nos desde esse dia. Um dia qualquer, que nos aproximara talvez a circunstância absurda de coincidir virmos ambos jantar às nove e meia, entrámos em uma conversa casual. A certa altura ele perguntou-me se eu escrevia. Respondi que sim. Falei-lhe da revista “Orpheu”, que havia pouco aparecera. Ele elogiou-a, elogiou-a bastante, e eu então pasmei deveras.Permiti-me observar-lhe que estranhava, porque a arte dos que escrevem em “Orpheu” soe ser para poucos. Ele disse-me que talvez fosse dos poucos. De resto, acrescentou, essa arte não lhe trouxera propriamente novidade: e timidamente observou que, não tendo para onde ir nem que fazer, nem amigos que visitasse, nem interesse em ler livros, soia gastar as suas noites, no seu quarto alugado, escrevendo também."

Livro do desassossego


segunda-feira, 20 de maio de 2013

BOOKS FEED YOUR MIND I. Livros e escritores que alimentam a mente

 Dou início à publicação de pequenos textos ou excertos de textos de livros e escritores de que gosto. O único critério é o meu gosto pessoal.



Franz Kafka


 O primeiro texto é extraído dos "Diários" de Franz Kafka, na entrada de 30 de Julho de 1914.

 Franz Kafka é um escritor checo de língua alemã e de ascendência judaica, nascido em Praga, em 1883. Por ter morrido de tuberculose em 1924, não acompanhou o destino das suas irmãs, assassinadas pelo regime Nazi.

 Licenciado em Direito, trabalhou em companhias de seguros e era conhecedor do sistema de justiça germânico da sua época, o que se reflecte em vários dos seus escritos.
O texto que aqui dou é perturbadoramente actual, apesar de ter quase cem anos.

A tradução do alemão é de Maria Adélia Silva Melo e a edição é da Difel.



Um escritório onde Kafka poderia ter trabalhado.


    "O director da Companhia de Seguros Progresso estava sempre profundamente insatisfeito com os seus funcionários. Agora todos os directores estão insatisfeitos com os empregados; a diferença entre empregados e directores é demasiado grande para ser transposta por simples ordens da parte do director e simples obediência da parte dos empregados. Só o ódio mútuo pode transpor a diferença e conferir perfeição a toda a empresa.

    Bauz, o director da Companhia de Seguros Progresso, olhou desconfiado para o homem que estava de pé em frente da secretária, que pretendia um lugar na companhia. Olhava também de vez em quando para os papéis que estavam à sua frente, na secretária.

    “O senhor é muito alto” disse ele, “isso vê-se; mas que sabe o senhor fazer? Os nossos empregados têm de saber fazer mais coisas para além de lamberem selos, e até mesmo isso não precisam de fazer, porque essas coisas são automáticas na nossa firma. Os nossos empregados são em parte funcionários, têm trabalho de responsabilidade para desempenhar; o senhor acha que está à altura? A sua cabeça tem uma forma esquisita. A sua testa é muito abaulada. Espantoso. Ora bem, qual foi o seu último emprego? O quê? Não trabalha há um ano? Mas porquê? Teve uma pneumonia? Ah, sim? Bem, isso não é lá uma grande recomendação, pois não? É claro que só empregamos pessoas em perfeito estado de saúde. Antes de ser admitido terá de ser visto por um médico. Agora está mesmo bem? Sim? É claro que é possível. Diga alguma coisa! Faz-me nervos, a falar assim baixinho. Vejo aqui que é casado, tem quatro filhos. E não trabalhou durante um ano! De facto, homem! A sua mulher lava para fora? Está bem. Bom, está certo. Uma vez que já aqui está, veja se o médico o observa agora; o empregado vai mostrar-lhe onde é. Mas isso não quer dizer que nós o vamos empregar aqui, mesmo que a opinião do médico seja favorável. De maneira nenhuma. De qualquer modo receberá pelo correio a participação da nossa decisão. Para ser franco, devo dizer-lhe sem rodeios: não estou nada bem impressionado consigo. Precisamos de um empregado completamente diferente. Mas vá ao médico para ser observado. Olhe que não lhe faz nada bem tremer dessa maneira. Não tenho autoridade para dispensar favores. Está disposto a fazer qualquer trabalho? Toda a gente está. Não é nada de especial. E agora digo-lhe pela última vez: vá-se embora e não me tome mais tempo. Já chega”.

    Bauz teve de dar um murro na mesa para que o homem se deixasse conduzir pelo empregado para fora do escritório do director". 


quarta-feira, 8 de maio de 2013

O autor

  

  O autor em 1966 ou 1967, no eléctrico da Praia das Maçãs, a fazer o que tinha que ser feito...