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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

NA MORTE DE CLAUDIO ABBADO



  
     Morreu aos oitenta anos o maestro Claudio Abbado.

     Talvez o último de uma linhagem de notáveis maestros italianos que abordaram o reportório romântico e da primeira metade do Séc. XX, Abbado sempre colocou a música em primeiro lugar.

     Tenho alguns discos dele, nomeadamente uma espantosa leitura da nona sinfonia de Mahler com a Berliner Philarmoniker, orquestra da qual foi maestro titular, cabendo-lhe a dura tarefa de substituir o carismático Herbert Von Karajan.

     São também de referência as gravações dos concertos de Mozart com Maria João Pires, com quem colaborava regularmente.

     Claudio Abbado foi um grande defensor e divulgador da música contemporânea, desde logo dos compositores seus compatriotas Luciano Berio e Luigi Nono, mas também da música de Arnold Schönberg e da segunda escola de Viena.

     Fundou e dirigiu inúmeras vezes a Orquestra de Jovens Gustav Mahler bem como a Orquestra de Jovens da União Europeia, e era grande o seu amor pelo ensino e pela passagem da sua arte às novas gerações.

     Era visível a sua satisfação quando dirigia no Festival de Lucerna, do qual foi director durante a última fase da sua carreira. A sua felicidade passava para os músicos e destes, para os espectadores. 

     O mundo da arte e da cultura fica mais pobre e a sua falta será grandemente sentida.


    

sábado, 11 de janeiro de 2014

BOOKS FEED YOUR MIND X: JOSEPH CONRAD





Joseph Conrad, escritor de língua inglesa mas de origem polaca, foi um dos mais modernos homens de letras do seu tempo.

Viajado e cosmopolita – foi embarcado na marinha mercante - correu mundo e buscou inspiração e enredo em muito do que viu e sentiu.

Da sua colectânea de contos, sugestivamente chamada “Tales of unrest” e que teve para português a tradução de “Histórias inquietas”, deixo um excerto do conto “Um posto avançado do progresso”.



Os "civilizadores" e os "selvagens". Quem era quem?



   “Viviam como cegos numa sala grande, apercebendo-se apenas do que entrava em contacto directamente com eles (e apenas imperfeitamente), incapazes de ver o aspecto geral das coisas. O rio, a floresta, toda aquela extensão de terra palpitante de vida, eram, para eles, apenas uma imensa solidão. Mesmo a luz brilhante do sol não lhes revelava o que quer que fosse. As coisas apareciam-lhes e desapareciam-lhes da frente dos olhos sem intencionalidade nem ligação. O rio parecia vir de nenhures e correr para nenhures. Fluía no vazio. Deste vazio, às vezes, saíam canos e homens com lanças nas mãos que invadiam dum momento para o outro o pátio do posto. Vinham nus, dum negro reluzente, eram perfeitos de membros e usavam adornos de conchas brancas e fios de latão ao pescoço. Falavam num blá-blá estranho e gutural, caminhavam com altivez e lançavam com aqueles olhos espantados e sempre em movimento olhares rápidos e selvagens. Os guerreiros acocoravam-se em compridas filas de quatro ou mais homens em frente à varanda, enquanto os chefes discutiam durante horas com Makola sobre uma presa de elefante. Sentado numa cadeira, Kayerts seguia da varanda o debate sem perceber patavina. Olhava para eles com os olhos azuis muito abertos e chamava por Carlier em voz alta: - Olhe! Olhe para aquele tipo ali; e o outro, à esquerda. Já viu alguma vez uma cara assim? Que animal!”

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O PODER DA MÚSICA IV JOHANN SEBASTIAN BACH



Bach foi o compositor perfeito; nada do que compôs é mediocre e quase tudo é sublime.
Durante a sua vida, compôs mais de trezentas cantatas, das quais cerca de cem se perderam.
A maior parte destas obras eram compostas e ensaiadas ao longo da semana, para serem executadas no domingo seguinte, segundo o calendário litúrgico.
A cantata BWV 58 foi composta para ser executada no primeiro domingo a seguir ao ano novo de 1727.
A interpretação está a cargo dos Concentus Musicus Wien sob a direcção de Nikolaus Harnoncourt.
Este músico austríaco e o holandês Gustav Leonhardt gravaram com os seus respectivos grupos (Concentus Musicus Wien e Leonhardt Consort) a integral das cantatas sacras ao longo de mais de dez anos e  as suas leituras continuam, na minha opinião, insuperáveis.






quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O PODER DA MÚSICA III RICHARD STRAUSS






No ano em que se comemoram 150 anos sobre o nascimento de Richard Strauss, excerto do seu poema sinfónico "Tod und Verklärung" (Morte e transfiguração).

Bom ano novo!


domingo, 10 de novembro de 2013

BOOKS FEED YOUR MIND IX

Hermann Hesse



   Hermann Hesse foi um escritor alemão cuja vida e obra marcaram a primeira metade do século XX. Mais conhecido como o autor de “Siddhartha”, duas das suas obras exerceram um particular fascínio em mim: “O lobo das estepes” e “Narciso e Goldmundo”, do qual deixo aqui um dos trechos mais reveladores.

   A escrita de Hesse é magistral e profunda, própria não só do homem culto que foi, mas de um pensador que reflectiu sobre a natureza da sua arte e do mundo que o rodeia.


Pietá


“…as naturezas da tua espécie, dotadas de sentidos fortes e apurados, naturezas de anímicos, de sonhadores, de poetas e amorosos, são-nos quase sempre superiores, a nós intelectuais e servidores do espírito. A vossa origem é materna. Viveis na plenitude, foi-vos concedida a força do amor e a intensidade do sentimento. Nós, os servidores do espírito, embora pareça às vezes que vos guiamos e dirigimos, não vivemos na abundância, vivemos na carência. A vós pertence-vos a opulência da vida, a suculência dos pomos, o jardim do amor, o reino belo da arte. A vossa pátria é a terra, a nossa é a ideia. O vosso perigo é afogar-vos no mundo dos sentidos, o nosso é sufocarmos no espaço rarificado. Tu és artista, eu sou pensador. Tu dormes no regaço da mãe, eu velo no deserto. O sol brilha para mim, para ti a lua e as estrelas…” 

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

BOOKS FEED YOUR MIND VIII. LIVROS E ESCRITORES QUE ALIMENTAM A MENTE

Vergílio Ferreira sobre Eça de Queiroz



  Ainda do diário de Vergílio Ferreira "Conta-corrente", duas entradas acerca do mestre maior das nossas letras de oitocentos:

  Na primeira, o valor emotivo das palavras, na segunda, a magia das palavras.

   13 de Setembro (sexta) 1974. De vez em quando, releio uma página do Eça. E é sempre o mesmo encantamento, a mesma misteriosa vibração da "palavra". Ninguém como ele conheceu as ocultas ressonâncias da língua. Os especialistas afirmam o "arbitrário" das palavras. É julgar a língua como uma articulação mecânica. Decerto o que não parece deriva do que nela acumulámos de emotividade. Mas creio que um enorme número de palavras tem uma raiz onomatopaica, ao menos longínqua. No "ribombar" ou "cacarejar" é evidente. Mas por exemplo "lua" (moon, luna, sêlênê) não terá a sugestão de suavidade, ténue fluidez que tem algo de onomatopaico? A palavra "cola" e a mais popular "goma" têm a mesma sugestão, mas voltada para realidades diferentes. A "cola" é seca e a "goma" é viscosa. A primeira refere um efeito, a secura do que está colado; a segunda refere-se à própria qualidade do líquido (como o glue inglês - este, sugestionante do murmúrio da goma escorrente de um gargalo -, palavra onomatopaica também), um líquido viscoso, pastoso. Uma mulher "bela" é mais alta que uma mulher "bonita" ou "linda", sendo que a "bonita" sugere uma nitidez de contornos como uma boneca, e "linda" sugere uma pequena estatura e um certo resplendor, talvez do olhar. Mas donde a "altura" da "bela"? Talvez o alongamento do e e do l que prolonga a dicção. (Daí o "resplendor" de "linda" da conjugação do l e do in que é agudo e expansivo.) Do mesmo modo, uma mulher "formosa" é mais "redonda" ou mesmo mais "gorda" do que uma mulher "bela". E a sua beleza é mais "moral" que a da mulher "bela" ou "linda". Mas porque é que "calvo" não é muito cómico e o é "careca"? Talvez porque "careca" tem uma nitidez que sugere a rasa superfície de um crânio como uma bola de bilhar e "calvo" (alvo) sugere só a brancura desse crânio, dando o c a sugestão do "redondo" (calvo-cavo). Do mesmo modo "violino" ou "rabeca". A "conotação" das palavras, o seu valor emotivo, deriva da carga de sensibilidade que nelas depusemos. mas assim, elas têm longinquamente um valor onomatopaico a posteriori. Detendo-nos, porém, na simples relação entre a palavra e o seu significado, nós descobrimos decerto que um grande número delas tem um intrínseco significado que em nada é arbitrário. Mas aquelas que o são - sê-lo-ão mesmo? Será imaginável uma designação por mero arbítrio, parecido com o capricho? Não é mais lógico admitir que o laço de necessidade se perdeu?


          

Quinta do Vesúvio, Douro, Portugal


  15 de Agosto (sexta) 1975. Que fazer? Que ler? Que pensar? Tomo A Cidade e as Serras, releio pela centésima vez algumas páginas da segunda parte. E um prazer infinito inunda-me na alegria da serra, no prazer sensório da realidade inventada pela magia da palavra do maior artista dela na nossa literatura. E a cada passo estremeço de uma delícia indizível na "água nevada e luzidia" da fonte, no grande salão em que o ar circulava "como num eirado", no vinho "seivoso", no grande salão vazio "com uma sonoridade capitular". Todo o "estilo" de Eça se nos dirige aos sentidos que vibram não com a realidade conhecida mas com o prazer que está lá e só na memória se conhece ou na translação dessa realidade que nela vibra e só num sobressalto se conhece como presença oblíqua e incerta. Assim o vinho e a água e tudo o mais é na escrita de Eça que nos sabem maravilhosamente - não no vinho e água que bebemos. Assim o real é insípido e inexpressivo sem o calor e a expressão que o artista lhe inventa e nos ficam submersos na memória e aí procuramos indistintamente para haver sabor e o mais quando em presença desse real.



segunda-feira, 7 de outubro de 2013

BOOKS FEED YOUR MIND VII. LIVROS E ESCRITORES QUE ALIMENTAM A MENTE



  Ao acaso, dei por mim a folhear o diário de Vergílio Ferreira, "Conta-Corrente", dos anos 1969 a 1976. Aqui se encontram o homem, o marido, o escritor, o professor, o amigo, o esteta, o filósofo, o observador da política, dos costumes, enfim do seu tempo, sempre num registo íntimo e reflexivo.
  São inúmeras, as entradas que merecem leitura e reflexão. Para hoje, deixo duas, a propósito da escrita.

24 de Agosto de 1973

  "Escrevi na entrevista que gosto apenas de "escrevinhar histórias". Não é exacto: eu não escrevo "histórias". Acho infantil, atrasado, o romance que conta uma "história". Insuportável. Uma "anedota" - não. Deixei de fazê-lo há muito. Um romance impõe à nossa emoção, inteligência, uma situação, um problema, um instante de... numa pulverização da "anedota", a recuperar não bem em narrativa mas em saldo emotivo. Construir histórias que se não possam "narrar". Transpor a "história" imediata para a sua transfiguração. Não a história prosificada mas irrealizada em poesia. Não "contar", mas "presentificar" uma situação. Não separá-la de mim, mas vivenciá-la, através de mim, com o leitor. Assim não me interessa "descrever" seja o que for, nomeadamente as "emoções", mas vivê-las (...)"

7 de Julho de 1976

  "Porque escrevo? Porque é que a parte séria do que sou dificilmente passa para este diário? Escrevo fundamentalmente porque a escrita me realiza, como a outros uma ocupação, mas sobretudo porque a escrita me dá acesso ao mundo do encantamento, do milagre, da verdade mais perfeita da vida. Pessoa dizia que poetava por se sentir responsável, perante os homens, do génio que possuía. Não me sinto responsável perante ninguém. Muito menos pelo génio que não tenho para me sentir. Mas se os outros penetrarem, pelos meus livros, no mundo da transfiguração, não deixei de lhes ser útil. Antes deles, porém, estou eu, a execução da parte melhor de mim, o fixar na palavra o que um instante fulgurou aos meus olhos maravilhados. Escrevo porque só a maravilha é real. O resto é o lixo de que se me compõe quase toda a vida. Mas a beleza e a verdade essencial e a transfiguração maravilhosa do imediato dificilmente passam para este diário. Porque estou aqui  demasiado preso a esse imediato para o milagre acontecer. E eu próprio sou indigno dele. Por isso necessito da cortina da "ficção" para me ocultar e a beleza aparecer. Um deus habita no que somos, mas só nos instantes de graça se revela - ou seja, nos revela na divindade que é nossa. Como a certas substâncias, só o despojo de uma enorme massa de desperdício no-la descobre. Somos quase só desperdício. Mas a pequena centelha que fulgura vale as escórias que se recusam."